And another one.

O dia já não tinha começado, digamos, com o pé direito para Bojan. Depois de falhar nos planos para a manhã inteira, agora encontrava-se preso no tráfego – já tradicionalmente estático – da cidade onde morava e estava demais atrasado para a pior disciplina que já teria visto em toda a sua vida. “O professor não vai, com razão, me perdoar. Deverá aplicar-me uma senhora bronca na frente de todos aqueles alunos tão loucos quanto eu.” – pensou, ao mesmo tempo que pisava o acelerador do carro com uma força certamente maior que a necessária.

Chegou na universidade. O clima estava curiosamente amigável, com nuvens cobrindo o sempre impiedoso sol escaldante que tanto o fizera parecer uma esponja de suor antes mesmo de chegar ao destino. Assim que fechou a porta do carro e começou a caminhada em direção à sala de aula, percebeu que não tinha nada de tão extraordinário assim: pessoas zanzando, jogando conversa e tempo fora, contando piadas de qualidade duvidosa como se o mundo ao redor deles fosse o mais belo, confortável e incrível dentre todos do universo. Antes de alcançar a entrada da sala, olhou para o relógio de pulso e viu que estava mais de 2/3 do tempo atrasado. Desistiu de entrar, ao passo que pensava numa forma de se punir. Não acreditava como poderia ser tão medíocre ao ponto de perder uma aula.

Bojan também não tinha muitos amigos na pós-graduação. Era um mundo, do ponto de vista social, estranho. As pessoas, como em todos os outros lugares, não eram nem um pouco confiáveis e seus professores, não obstante donos de mentes incríveis com conteúdo científico de fazer inveja a várias bibliotecas que já visitara, sempre o desapontavam do ponto de vista humano. Alguns maléficos, outros desleixados, acomodados e ainda aqueles completamente furtivos e imorais. Não era o que Bojan tinha como ideal de vida, de condução do processo evolutivo. Sempre parava para pensar nessas coisas, visto que não queria se perder (mais uma vez) de seus princípios adquiridos antes mesmo do primeiro “dá-dá-dá” no berço.

Quando não estava em aula, Bojan aproveitava o tempo no laboratório pesquisando, estudando e preparando material para tentar realizar simulações e experimentos que lhe permitissem publicar algum artigo. O tempo corria, e ele sabia que já tinha dormido excessivamente no ponto. Antes culpava todos ao redor pelas mazelas e fracasso, porém logo via que era um absurdo culpar os outros pelos seus próprios erros. Não queria, em ocasião alguma, cometer o mesmo erro que durante toda vida o irritou ao extremo.

Depois de ligar o notebook, viu-se afetado pela raiva e decepção. Precisava de ar, água gelada ou talvez um lanche. Saiu e, enquanto andava, observava discretamente as pessoas ao redor. Não sentiu a mínima vontade de partilhar o mesmo lugar com elas, mas era necessário. Finalmente encontrou uma conhecida. Conversou por um breve período e seguiu em frente. No lugar destinado às cantinas, escolheu a que parecia mais higiênica e fez o pedido. Ao sentar, observou um grupo que se aproximava. Pessoas de outros laboratórios: uns caras estranhos, outros repulsivos e um casal de colegas de classe. Ninguém despertou interesse em Bojan, e talvez a recípocra fosse verdadeira. Ele era um estranho no ninho dos caras, afinal. Veio de fora, com amigos de fora, roupas de fora, acessórios de fora, “rabiscos” na pele de fora, ideais de fora… não lhe causaria a mínima surpresa se descobrisse, ao acaso ou não, que não era bem vindo ali. Queria apenas – sempre fazia questão de lembrar disso, pois parecia amenizar a agonia – seu título e nada mais.

Terminou de alimentar-se e voltou para o laboratório. Ali, finalmente, deram uma trégua para ele depois que baixou os olhos nos livros. Ainda se comunicou, brevemente, com um par de colegas. Era uma obrigatoriedade para evitar conflitos e situações indesejadas, como já acontecera com ele e tinha acabado de acontecer com o colega da mesa logo à frente do canto de Bojan. “Acho que também chamam isso de educação, por aí.” – pensou.

Assim que acabou a sessão, fechou tudo e voltou pra casa. Na mente de Bojan, apenas o imenso trabalho de tentar encontrar algo que o motivasse a continuar num mundo que não pertencia, numa sociedade conflitante ao seu perfil e com pessoas mutualmente exclusivas aos seus princípios. “Motivação, eu a clamo agora” – dizia, sozinho, no carro à caminho de casa. Deu algumas risadas. Ligou o som, pôs um CD aleatório do case: o álbum Mirage, do Camel. Ficou satisfeito e continuou o retorno ao lar.

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Uma resposta para “And another one.

  1. coitado do bojan nesse mundo injusto em que ele vive…… é como um amigo meu diz, nao da pra nadar contra a correntesa.

    kkkkkkkkkkkkkkkkk

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